30.7.07

Cansei.

Dos festeiros.
Das meninas que gritam.
Dos apreciadores de cerveja.
Das gordas que choram.
Dos best-sellers.
Dos velhos tarados.
Do tempo que não pára.
Das distâncias injustas.
Das velhas no caminho.
Das crianças que não sabem.
Dos comentários machistas.
De não ser a melhor.
De ouvir o vazio.
E de perder o conteúdo.
De pretender e nunca alcançar.
Das músicas em looping.
Da família vigilante.
De cheiros ruins.
De não ser rica.
Das meninas bonitas.

Sabe...?

Cansei.

3.7.07

Quero ser Paula.

Ela é A Paula. Tem cabelo arrumado, roupas bonitas e acessório invejáveis. Milhões amigos, nem tantas amigas. Festeira, praieira... E bebe. E fuma. A Paula.

Quero ser Paula porque ela sabe falar. Aquilo que todo mundo quer ouvir, aquilo que todo mundo espera ouvir, aquilo que todo mundo diria. E todo mundo gosta.

Quero ser Paula e nunca andar sozinha. Ter a capacidade inexplicável de sempre conhecer duas ou mais pessoas em todos os grupinhos formados em todos os lugares. E ter a paciência de cumprimentar cada um deles. Ca-da-um-de-les...

Quero ser Paula de futuro certo. Futuro planejado. Futuro sabido. Um marido, dois filhos, cachorro, casa e carro. Emprego que sustenta. Um amante. Rotina. Desgaste. Acomodação.

Quero ser Paula - aquela menina normal. Saudável. Bonita. Motivo de orgulho. Neta favorita. Com mais de 500 amigos no Orkut. De passos previsíveis. Vida certa. Perfeita.





Hipocrisia ambulante.........

8.6.07

Festa de Família

Procure a menina que se esconde. Sua roupas têm cores neutras, não são feias, e escondem as neuras que tem de seu corpo. Seu rosto é calmo, inexpressivo, apesar de seus olhos serem um mar de densos pensamentos indecifráveis. Não há em seu aspecto físico nada que lhe chame atenção e seus gestos, passos e ações não poderiam ser mais discretos.

É ela, a filha de um fulano. Seu nome não é importante, não se sabe se seu nome é um ou se é o nome de sua irmã. Todos se confundem, ninguém é culpado, e elas são parecidas... não são? Não importa.

Ela se esconde, não quer falar com ninguém e se alguém tentar, não passará de um papo de minutos. Verdade que se você notar nela por algum motivo inexplicável e sorrir, ela sorrirá de volta. Não é mal educada, está longe disso. Se você perguntar para qualquer um, vão dizer que gostam dela. Claro que no início vai haver dificuldade em especificar de quem estão falando, mas, passado isso, com certeza dirão que gostam dela.

A festa acaba e ela vai como chegou. Resurge quando se despede de todos, como manda a etiqueta, e logo depois volta à sua invisibilidade. Se você observar com cuidado, há alívio em sua expressão ao partir, mas ninguém nota. Sua inexistência já virou costume na cabeça de todos.

Enfim, sua presença fantasmagórica não deixa vazio para trás. Desse grupo de pessoas que se chama família, quem diria algo sobre ela? Se achassem seu nome familiar seria muito. Seu rosto dificilmente lembrado aparece nas fotos como o alguém que faz parte... Questão de sobrenome e genes, mais nada. E é isso que a condiciona passar tardes e noites em companhia de completos desconhecidos.