Na maior parte de tempo, quando completamente imersa em uma tarefa, vinha a sensação inconsciente de que a veria mais tarde, voltando do trabalho, de um passeio ou, quem sabe, de uma viagem de alguns dias. Já fazia alguns meses. A agenda lotada me ajudava.
Em casa, vivíamos como o espectro de uma família. Era silencioso. Meu pai andava ansioso e também mais apegado a mim. Minha mãe, por outro lado, havia se distanciado a tal ponto que eu podia contar nos dedos as palavras que havíamos trocado desde o incidente. Ah... o incidente.
A ausência de Amanda não foi novidade. Há mais de ano que nossos compromissos nos distanciavam uma da outra. A faculdade, os estágios, cursos e projetos paralelos... Estávamos crescendo, certo?
Por isso mesmo a falta de sua presença não representou uma grande mudança na minha vida. Também me envolveu em uma ilusão cruel de que ela estava ali, sim, mesmo que longe. E quando a realidade caía em minha cabeça – de novo e de novo – como uma rocha maciça, a dor era grande. Uma tristeza me dominava, sem resistência, me enterrava e me jogava em uma escuridão esmagadora. Sensação da morte.
Não chorei quando soube, não chorei durante o enterro e também não chorava nesses momentos. Em vez disso, sufocava. Não éramos irmãs próximas, dificilmente melhores amigas. No entanto, sentia-me perdida e sozinha como jamais antes. Como poderia continuar, dar os próximos passos? Ela era a desbravadora. Se em muitos aspectos guardávamos diferenças, sua força me inspirava. Notei que, na verdade, era vital.
Abandonada. Eu era tão ridiculamente dependente? Odiei-me por me sentir assim. Odiei-a ainda mais por ter me deixado. Maldita Amanda. Fugiu sem explicações; escolheu o caminho fácil. Tomou uma decisão estúpida sem nem se importar. Eu não precisava dela.
Foi durante a arrumação de suas coisas que descobri o inverso. Dentro de um envelope branco, no qual vinha impresso seu nome completo, em uma folha branca preenchida com termos técnicos e formais, números e palavras que, em meu entendimento limitado, soavam como aviso. Não. Uma condenação.
Era ela que precisava – precisou - de mim.
(Continua...)
Futuro de Amanda I
Futuro de Amanda II
Futuro de Amanda III
Futuro de Amanda V
4.11.12
30.10.12
O Futuro de Amanda III
A morte é obviamente algo natural, ainda que as pessoas insistam em se chocar em cada uma delas. Também dolorosa, é claro, mas sempre natural. O que não é natural é despedir-se tão cedo e tão definitivamente de um filho. Foi esse pensamento que guardei ao ver meus pais desolados ali, à beira da cova precoce.
Ser pai nunca foi fácil ou adequado a mim. Era o caminho inevitável, mas chegou tão assustadora quanto inesperadamente e eu juro que fiz meu melhor. Inegável apontar que Amanda facilitou. Eu sempre soube que não poderia desejar uma criança melhor. Mesmo assim, acabamos neste fim.
Sua força sempre foi razão de orgulho para mim. Era esperta, enérgica. Quando me confrontou pela primeira vez eu quase não me aguentei de raiva, mas também soube que ela estava crescendo. Tinha opinião, suas próprias ideias sobre a vida. Por mais que me doesse o conflito, orgulhou-me vê-la tão independente.
Eventualmente, a outra também floresceu - a sua própria maneira. Porém, era em Amanda que eu via a força vital, desbravadora, vencedora. Na minha cabeça, seu futuro brilhante era certo, praticamente decidido. Teria tudo, seria feliz. Eu, como pai, tinha acertado.
Custou-me alguns dias de choque e mais algumas noites de lágrimas para finalmente perceber que não, não havia sucedido. Pequei no mais inimaginável dos aspectos: sua fraqueza. Subestimei seu tamanho, sua influência. Ainda tinha dificuldade de acreditar, mas a lápide que levava seu nome não deixava me enganar. Era fraca – e eu não pude deixar de sentir certo desprezo.
Sua ação deixava apenas dor e perguntas para trás. Por quê? Foi a falta de uma declaração aberta: eu a amava. Talvez ela não nos amasse o suficiente. Por quê? Seu futuro era lindo. Ela não conseguiu enxergá-lo. Por quê? Agora, havia se destruído. Não era, não estava. Não existia. Por quê?
Estaria em um “lugar melhor”? Dificilmente. Era reconfortante pensar que estava, sim, em algum universo paralelo onde ainda pudesse crescer, desenvolver-se, construir uma vida e ser feliz. No entanto, o melhor lugar era aqui, onde poderia me tocar com todas as suas conquistas. Aqui, onde sua presença provaria sua existência; não ficaríamos relegados a teorias tolas. Aqui, comigo, até o dia em que seria ela – não eu – a ter que se despedir.
(Continua...)
Futuro de Amanda I
Futuro de Amanda II
Futuro de Amanda IV
Futuro de Amanda V
Ser pai nunca foi fácil ou adequado a mim. Era o caminho inevitável, mas chegou tão assustadora quanto inesperadamente e eu juro que fiz meu melhor. Inegável apontar que Amanda facilitou. Eu sempre soube que não poderia desejar uma criança melhor. Mesmo assim, acabamos neste fim.
Sua força sempre foi razão de orgulho para mim. Era esperta, enérgica. Quando me confrontou pela primeira vez eu quase não me aguentei de raiva, mas também soube que ela estava crescendo. Tinha opinião, suas próprias ideias sobre a vida. Por mais que me doesse o conflito, orgulhou-me vê-la tão independente.
Eventualmente, a outra também floresceu - a sua própria maneira. Porém, era em Amanda que eu via a força vital, desbravadora, vencedora. Na minha cabeça, seu futuro brilhante era certo, praticamente decidido. Teria tudo, seria feliz. Eu, como pai, tinha acertado.
Custou-me alguns dias de choque e mais algumas noites de lágrimas para finalmente perceber que não, não havia sucedido. Pequei no mais inimaginável dos aspectos: sua fraqueza. Subestimei seu tamanho, sua influência. Ainda tinha dificuldade de acreditar, mas a lápide que levava seu nome não deixava me enganar. Era fraca – e eu não pude deixar de sentir certo desprezo.
Sua ação deixava apenas dor e perguntas para trás. Por quê? Foi a falta de uma declaração aberta: eu a amava. Talvez ela não nos amasse o suficiente. Por quê? Seu futuro era lindo. Ela não conseguiu enxergá-lo. Por quê? Agora, havia se destruído. Não era, não estava. Não existia. Por quê?
Estaria em um “lugar melhor”? Dificilmente. Era reconfortante pensar que estava, sim, em algum universo paralelo onde ainda pudesse crescer, desenvolver-se, construir uma vida e ser feliz. No entanto, o melhor lugar era aqui, onde poderia me tocar com todas as suas conquistas. Aqui, onde sua presença provaria sua existência; não ficaríamos relegados a teorias tolas. Aqui, comigo, até o dia em que seria ela – não eu – a ter que se despedir.
(Continua...)
Futuro de Amanda I
Futuro de Amanda II
Futuro de Amanda IV
Futuro de Amanda V
13.8.12
O futuro de Amanda II
Amanda era inteligente, verdade. Esperta. Forte. Crescera uma pessoa
boa, fiel. Motivo de orgulho para qualquer mãe. Possuía diversas qualidades,
trazia suas próprias marcas, muitas das quais jamais entenderia. Mas, acima de
tudo, era jovem.
Até onde sabia, Amanda era uma garota feliz. Tinha sua família,
namorado, trabalho. Não era perfeito, porém, evoluía com perfeição.
Praticamente mulher feita, prudente o suficiente para trilhar um caminho de
sucesso. Feliz, porque sabia muito bem o que queria, ainda que cedesse a uma
tristeza eventual. Tinha vida, tempo, energia. Futuro.
Por isso, o velório passou-se tão melancólico. “Tão nova, tão cedo.” Comentários
sobre os possíveis motivos de sua terrível decisão. O caixão ficou fechado
durante toda a cerimônia, pois optara por não preservar seu corpo. De todos os
seus atos, aquele era o que mais machucara Íris. Era cruel enterrar uma filha,
mas doía não poder vê-la pela última vez. Íris encarou o fato como um último
castigo, mesmo sabendo que Amanda nunca o faria conscientemente.
Sabia que a raiz de sua culpa vinha de um tempo em que sua primogênita
era nova demais para guardar os acontecimentos na consciência. Nascera num
ambiente conturbado, cheio de problemas, dúvidas e discussões. Íris havia feito
seu melhor, mas a urgência em sobreviver superou todo o resto. Nesse turbilhão,
Amanda foi muitas vezes esquecida.
E se tivesse brincado mais com a pequena? Oferecido mais carinho, mais
amor? E se tivesse lhe dado mais do seu tempo, em vez de desperdiça-lo em
lágrimas e preocupações? Teria ela chegado a esse fim?
Sua pergunta mais importante, no entanto, era outra: poderia ter evitado
esta trágica conclusão? Amanda era, em muitos aspectos, misteriosa. Se tinha
motivos para se deprimir a tal ponto, nunca os revelou. Nem sequer demonstrou,
implícita ou explicitamente. Mas, se os tinha, era sua obrigação como mãe
percebe-los. E por dias, até meses, ficou revivendo cada momento ao seu lado,
esperando captar algo novo, qualquer coisa que denunciasse sua inclinação. Não
conseguiu.
No meio do caminho, falhara. Seus erros alcançaram tal nível que
perdera uma filha e – pior - não seria capaz de mudar o fato caso voltasse no
tempo. Se Amanda a culpava, nunca lhe acusou. Porém, não diminuía sua
responsabilidade.
Estaria sua caçula a salvo? Teve medo. Uma de suas filhas não tinha
mais um futuro. A outra poderia estar seguindo o mesmo rumo. Quantas vidas
conseguiria arruinar? Não queria saber. De uma coisa tinha absoluta certeza:
não deixaria que acontecesse de novo, independente do que tivesse que
sacrificar.
(Continua...)
Futuro de Amanda I
Futuro de Amanda III
Futuro de Amanda IV
Futuro de Amanda V
(Continua...)
Futuro de Amanda I
Futuro de Amanda III
Futuro de Amanda IV
Futuro de Amanda V
Assinar:
Postagens (Atom)