13.12.12

Futuro de Amanda V

Era apego que transbordava dos meus olhos durante a longa tarde em que se fez seu funeral. Apego por ela e tudo o que representava: o amor, a confiança, toda aquela felicidade que agora perdera sentido. E também o futuro.

No começo, soou como um trote mal feito. Chegou por meio de um telefonema e caiu como uma bomba pretensiosa: Amanda se suicidou. Por alguns instantes, não soube se ria ou se ficava bravo, mas um fato agravou a notícia e fez com que parecesse palpável: era a voz da mãe dela, uma pessoa tão dada a piadas quanto um servidor de repartição pública.

Foi assim que a notícia chegou, seca, com uma rasa explicação depois. Um câncer havia sido descoberto, em segredo. Ela escondera os exames, sofrera sozinha. Mas havia espaço para uma batalha, com chances otimistas, e ela se rendeu. Sem buscar ajuda, dar qualquer chance à força e companheirismo dos seus. Nem mesmo a mim.

Ficamos todos à deriva na tragédia, como em pequenos botes individuais e sem remo. Por quê? Desde quando? A culpa é minha? Eu poderia ajudar? Ainda que as perguntas fossem as mesmas para todos, a busca pelas respostas era solitária.

No fim, era inútil. Amanda levara tudo consigo: suas razões, acusações, dúvidas. Sua história e o seu futuro, mesmo que incerto. No meu caso, também o meu futuro. Roubara de mim todos aqueles planos, as expectativas, esperanças -  que não significaram nada quando ela tomou a derradeira decisão. Tudo mentira?

A dor de sua negligência em relação a tudo o que havíamos vivido e prometido juntos era dilacerante, como uma faca que afundava em meu estômago a cada gole de aceitação. Ela não pensou em mim... Pior! Não confiou em mim para assumir sua luta e dividir seu peso. Não, não era mulher forte e determinada, talvez nem mesmo me amasse.

Quando enfim me acomodei na ideia de sua traição, afundado num breu de decepção, sua voz me resgatou. Vinda de um passado recente, revelando sua outra intenção. Um sopro positivo, levemente angustiado, mas afirmativo:

“Eu quero mais. Muito mais.”

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Futuro de Amanda IV

4.11.12

O Futuro de Amanda IV

Na maior parte de tempo, quando completamente imersa em uma tarefa, vinha a sensação inconsciente de que a veria mais tarde, voltando do trabalho, de um passeio ou, quem sabe, de uma viagem de alguns dias. Já fazia alguns meses. A agenda lotada me ajudava.

Em casa, vivíamos como o espectro de uma família. Era silencioso. Meu pai andava ansioso e também mais apegado a mim. Minha mãe, por outro lado, havia se distanciado a tal ponto que eu podia contar nos dedos as palavras que havíamos trocado desde o incidente. Ah... o incidente.

A ausência de Amanda não foi novidade. Há mais de ano que nossos compromissos nos distanciavam uma da outra. A faculdade, os estágios, cursos e projetos paralelos... Estávamos crescendo, certo?

Por isso mesmo a falta de sua presença não representou uma grande mudança na minha vida. Também me envolveu em uma ilusão cruel de que ela estava ali, sim, mesmo que longe. E quando a realidade caía em minha cabeça – de novo e de novo – como uma rocha maciça, a dor era grande. Uma tristeza me dominava, sem resistência, me enterrava e me jogava em uma escuridão esmagadora. Sensação da morte.

Não chorei quando soube, não chorei durante o enterro e também não chorava nesses momentos. Em vez disso, sufocava. Não éramos irmãs próximas, dificilmente melhores amigas. No entanto, sentia-me perdida e sozinha como jamais antes. Como poderia continuar, dar os próximos passos? Ela era a desbravadora. Se em muitos aspectos guardávamos diferenças, sua força me inspirava. Notei que, na verdade, era vital.

Abandonada. Eu era tão ridiculamente dependente? Odiei-me por me sentir assim. Odiei-a ainda mais por ter me deixado. Maldita Amanda. Fugiu sem explicações; escolheu o caminho fácil. Tomou uma decisão estúpida sem nem se importar. Eu não precisava dela.

Foi durante a arrumação de suas coisas que descobri o inverso. Dentro de um envelope branco, no qual vinha impresso seu nome completo, em uma folha branca preenchida com termos técnicos e formais, números e palavras que, em meu entendimento limitado, soavam como aviso. Não. Uma condenação.

Era ela que precisava – precisou - de mim.

(Continua...)


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30.10.12

O Futuro de Amanda III

A morte é obviamente algo natural, ainda que as pessoas insistam em se chocar em cada uma delas. Também dolorosa, é claro, mas sempre natural. O que não é natural é despedir-se tão cedo e tão definitivamente de um filho. Foi esse pensamento que guardei ao ver meus pais desolados ali, à beira da cova precoce.

Ser pai nunca foi fácil ou adequado a mim. Era o caminho inevitável, mas chegou tão assustadora quanto inesperadamente e eu juro que fiz meu melhor. Inegável apontar que Amanda facilitou. Eu sempre soube que não poderia desejar uma criança melhor. Mesmo assim, acabamos neste fim.

Sua força sempre foi razão de orgulho para mim. Era esperta, enérgica. Quando me confrontou pela primeira vez eu quase não me aguentei de raiva, mas também soube que ela estava crescendo. Tinha opinião, suas próprias ideias sobre a vida. Por mais que me doesse o conflito, orgulhou-me vê-la tão independente.

Eventualmente, a outra também floresceu - a sua própria maneira. Porém, era em Amanda que eu via a força vital, desbravadora, vencedora.  Na minha cabeça, seu futuro brilhante era certo, praticamente decidido. Teria tudo, seria feliz. Eu, como pai, tinha acertado.

Custou-me alguns dias de choque e mais algumas noites de lágrimas para finalmente perceber que não, não havia sucedido. Pequei no mais inimaginável dos aspectos: sua fraqueza. Subestimei seu tamanho, sua influência. Ainda tinha dificuldade de acreditar, mas a lápide que levava seu nome não deixava me enganar. Era fraca – e eu não pude deixar de sentir certo desprezo.

Sua ação deixava apenas dor e perguntas para trás. Por quê? Foi a falta de uma declaração aberta: eu a amava. Talvez ela não nos amasse o suficiente. Por quê? Seu futuro era lindo. Ela não conseguiu enxergá-lo. Por quê? Agora, havia se destruído. Não era, não estava. Não existia. Por quê?

Estaria em um “lugar melhor”? Dificilmente. Era reconfortante pensar que estava, sim, em algum universo paralelo onde ainda pudesse crescer, desenvolver-se, construir uma vida e ser feliz. No entanto, o melhor lugar era aqui, onde poderia me tocar com todas as suas conquistas. Aqui, onde sua presença provaria sua existência; não ficaríamos relegados a teorias tolas. Aqui, comigo, até o dia em que seria ela – não eu – a ter que se despedir.

(Continua...)

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