Chegou em casa tarde e sozinho, como sempre. Seus fins de semana melancólicos e solitários se estendiam cada vez mais a cada mês. Porém, naquele dia, naquele dia em especial, algo estava diferente.
Havia, naquele mesmo dia, mais cedo, um garoto, um pequeno pedinte na porta da livraria. Mirrado, criança, curioso. Falava com autoridade de adulto, mas não passava de um pirralho intrometido. Sentado em um banquinho para descansar do calor infernal que fazia de tarde, ficara observando o garoto de longe. Quando este se aproximou pra vender balas ou pedir qualquer troco, ele retrucou:
- Sabe como se fala "Boa tarde" em japonês?
O menino, apreensivo e desconfiado, perguntou:
- Como?
Sorriu frente à surpresa do garoto.
- "Konitiwa" - respondeu - E "Boa noite" é "Kombawa".
- É? - perguntou o menino, ainda desconfiado.
- Sim - disse com confiança.
Então o garoto saiu correndo em direção às pessoas que passavam pela calçada da livraria, dizendo para quem quisesse ouvir as novas palavras de seu repertório. Alguns paravam, achando graça, outros ignoravam. Mas o menino se divertia. E ensinava seus amiguinhos.
- Como que é mesmo, tio?
- "Konitiwa" para "Boa tarde" e "Kombawa" para "Boa noite".
- Kanitiwa. Kambawa. Ok. - repetiu o pequeno.
E, pela primeira vez em anos, o "tio" se sentiu bem.
10.11.07
27.10.07
Pontos de Vista (1 de 3)
Naquele dia, ele chegou feliz em casa. Trazia consigo a mesma quantia de dinheiro de sempre - talvez até menos - mas estava especialmente feliz. Pousou seu corpo cansado no tapetinho que lhe servia de cama, enquanto escondia um sorriso por entre os braços. Dessa vez, sua esmola não iria para a pinga de seu padrasto. Dessa vez sua mãe não iria arrancar dele o que recebera aquele dia.
"Kanitiwa" - pensou - "Boa tarde..."
Como era mesmo "boa noite"? Não poderia esquecer! "Kambawa"?
Aquele homem fora bondoso em lhe ensinar aquela língua estranha. Aquele homem não lhe dera dinheiro nenhum.... dinheiro nenhum para que seu padrastro pudesse ficar mais bêbado.
Como sempre, entregou o dinheiro para sua mãe. Mas hoje, sorria. E ela nem desconfiara do que ele guardava dentro de sua jovem mente curiosa.
- Kambawa, mãe!
- Que isso, menino?! Vai dormir, vai!
"Kanitiwa" - pensou - "Boa tarde..."
Como era mesmo "boa noite"? Não poderia esquecer! "Kambawa"?
Aquele homem fora bondoso em lhe ensinar aquela língua estranha. Aquele homem não lhe dera dinheiro nenhum.... dinheiro nenhum para que seu padrastro pudesse ficar mais bêbado.
Como sempre, entregou o dinheiro para sua mãe. Mas hoje, sorria. E ela nem desconfiara do que ele guardava dentro de sua jovem mente curiosa.
- Kambawa, mãe!
- Que isso, menino?! Vai dormir, vai!
2.10.07
Retrato da sociedade brasileira
- O que o senhor acha dessa novela do Renan Calheiros?
- Olha, moço, eu não tenho tempo de assistir novela não, só vejo noticiário...
- Olha, moço, eu não tenho tempo de assistir novela não, só vejo noticiário...
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