Durante a madrugada de ontem, a empresária Amanda Pwinki (55) foi encontrada morta a poucos metros da guarita do prédio onde morava. Pelo estado de seu corpo e alegações de testemunhas, a polícia considera que tenha se jogado de seu próprio apartamento no 19º andar, onde residia há mais de dois anos. Dona Jussara, outra moradora do 19º andar, diz que acordou com o estrondo, assim como a maioria de seus vizinhos. “Foi muito alto, eu até achei que estava tendo um pesadelo. Quando olhei, o porteiro chamava por ajuda e outras pessoas estavam observando.”, diz, emocionada. Ela também conta que Amanda era uma mulher amável, apesar de reservada, e que tratava a todos com muito respeito.
Para o ex-marido, Luis Banis, foi uma grande surpresa. “Nós nos encontramos no fim de semana passado para resolver assuntos das crianças e ela parecia muito bem. Ria de tudo, fazia piadas, até achei que estávamos nos aproximando.”, revela, claramente abatido. Amanda e Luis tinham dois filhos juntos, uma menina de 15 anos e um menino de 9, que moram com o pai em um bairro nobre de São Paulo. Luis ainda não teve coragem de dizer o que aconteceu para os filhos e nem sabe como irão reagir.
Para a mãe de Amanda, Marcia, a filha já dava sinais de depressão há um bom tempo. “Ela me ligava tarde da noite para falar de coisas sem importância, eu achava que era porque ela queria conversar coisas sérias e não tinha coragem.”, desabafa a senhora, viúva há dez anos. “Meu marido que conhecia bem a minha filha, dizia que ela era bem transparente e que não estava feliz em seu casamento. Acertou, porque ela acabou divorciando, né?”
No apartamento de Amanda, nada parecia fora de lugar. A polícia encontrou a cama feita, nenhuma louça para lavar, tudo muito limpo e bem arrumado. Em seu quarto, a janela estava totalmente aberta e havia uma carta, que endereçada à sua mãe, dizia:
“Mãe,
A senhora se lembra daquele fim de semana na fazenda do tio Mário? O papai queria me ensinar o nome dos pássaros, mas eu queria mesmo era cavalgar no Luke, o maior garanhão de lá. Fui de teimosa, subi nele quando ninguém estava olhando, tive minha diversão por 2 minutos e caí dura no chão. Lembro que vocês demoraram para me achar e eu ouvia meu nome aos gritos. Fiquei deitada na grama um tempão, sentindo minha perna quebrada, chorando feito tonta, rezando porque achava que iria morrer.
Naquele momento, um pássaro preto – que depois o pai me diria ser um Chupim - pousou perto de mim. Ficou me olhando, me encarando, e deu um pio tão poderoso que chamou a atenção de vocês. Não sei se você se lembra de me achar por causa dele, eu não contei isso para ninguém.
Foi nesse dia que secretamente comecei a desejar ser um Chupim. Ele é pequeno, mas tem um canto alto e voa feito um esnobe. A senhora nem imagina a admiração que tive por ele naquele dia. Cheguei até a montar uma pasta enorme só com informações e fotos dele, que mantive e alimentei por anos a fio.
Com o tempo, é claro, a gente esquece dessas coisas. Nem sei qual foi o fim da pasta, se acabei jogando fora. Nem sei se você um dia chegou a vê-la. É estranho, depois de tanto tempo, eu me lembrar dela, as inúmeras páginas montadas com tanto carinho, tanto sonho e esperança.
Naquela época, acho que eu ainda acreditava em muitas coisas que eu acabei deixando para trás.
Me desculpe, mãe.
Amanda”
3.2.10
28.1.10
De viver
Dona Helena era um tipo de mulher prática e bem vivida. Tão cheia de cicatrizes, que era possível sentir sua dor através do profundo preto de seus olhos. Eram como dois poços de piche, densos, avassaladores para quem os encarasse.
- O homem que ganha o coração assim muito forte e muito rápido, não é homem que dura. Paixão é uma armadilha dolorida, minha filha.
Ritinha sempre foi a versão menor de sua mãe. Ouvia e convivia tanto com ela que aos poucos tomava os mesmo trejeitos, as mesmas palavras. Na adolescência mimetizava tão bem os gestos de Helena, que parecia mesmo um pequeno clone, cheio de personalidade e de confiança em tudo o que dizia. “Ah, se a mulher não trabalha, vive de mendigagem com marido cafajeste.”, dizia para as amigas. “Se fosse eu com seis filhos – Deus que me livre! – arranjava dez empregos, em vez de ficar na rua caçando homem que bate em criança.”, opinava sobre a vida da vizinha. No dia em que pegou três marmanjos mal-tratando um cãozinho de rua, pegou um pau e saiu correndo aos berros para chamar ajuda e dar uma lição neles. Bateu neles até que o último se rendesse e ai deles se voltassem a fazer malandragem naquela vizinhança.
“Esse Marco Antônio olha assim pra todas, não pode ser boba não.” Pois foi quando Marco Antônio entrou em sua vida que o rumo das coisas mudou. O menino era o galã da escola. Alto, atlético, desses com ombros largos e com aqueles olhos verdes de derreter qualquer coração. Ritinha resistiu mais que qualquer outra que Marco já havia posto em sua mira. Xingou, falou mal pra todo mundo, até pregou peças para humilhar o rapaz. Mas ele foi tão, tão insistente que quando já era moça adulta, cheia de um romantismo que sua mãe oprimia com todas as forças, não conseguiu mais fugir. Se entregou de corpo e alma, entregou tão entregada que grudou de vez.
Casaram. Tiveram uma filha que Dona Helena pôde conhecer apenas nos primeiros anos. A mulher, mula teimosa, faleceu de doença fatal, ainda fiel a suas crenças, suas opiniões. Tão crente de si mesma que até fez Ritinha duvidar de seu amor por Marco Antônio e do amor dele por ela. Tanto que ela até chegou a se perguntar se deveria ensinar à sua filha os mesmos ensinamento da avó, que querendo ou não estava certa de muita coisa.
- Dona Rita, a Maíra ligou querendo falar do casamento. Pediu para ligar ainda hoje pra ela.
Ritinha concordou com a cabeça, olhando o mar do horizonte, longe dali, longe da varanda que Marco Antônio construíra anos atrás com seus próprios braços. Os cabelos grisalhos oscilavam ao ritmo da brisa marítima, as rugas aprofundavam quando dava, mesmo que de muito leve, o sorriso sereno. O morno da tarde fazia bem à alma.
O pôr-do-Sol era a cada dia mais tocante. Sozinha, era como a única fonte de calor para seu dolorido coração. E quando os pontinhos brilhantes de luz no azul marinho tomavam o lugar do laranja eletrizante, Dona Rita tinha lágrimas nos olhos. Olhava para a cadeira ao lado, há quatro anos vazia. E voltava para dentro, sempre imaginando se a solidão era melhor sem a dor de uma saudade.
- O homem que ganha o coração assim muito forte e muito rápido, não é homem que dura. Paixão é uma armadilha dolorida, minha filha.
Ritinha sempre foi a versão menor de sua mãe. Ouvia e convivia tanto com ela que aos poucos tomava os mesmo trejeitos, as mesmas palavras. Na adolescência mimetizava tão bem os gestos de Helena, que parecia mesmo um pequeno clone, cheio de personalidade e de confiança em tudo o que dizia. “Ah, se a mulher não trabalha, vive de mendigagem com marido cafajeste.”, dizia para as amigas. “Se fosse eu com seis filhos – Deus que me livre! – arranjava dez empregos, em vez de ficar na rua caçando homem que bate em criança.”, opinava sobre a vida da vizinha. No dia em que pegou três marmanjos mal-tratando um cãozinho de rua, pegou um pau e saiu correndo aos berros para chamar ajuda e dar uma lição neles. Bateu neles até que o último se rendesse e ai deles se voltassem a fazer malandragem naquela vizinhança.
“Esse Marco Antônio olha assim pra todas, não pode ser boba não.” Pois foi quando Marco Antônio entrou em sua vida que o rumo das coisas mudou. O menino era o galã da escola. Alto, atlético, desses com ombros largos e com aqueles olhos verdes de derreter qualquer coração. Ritinha resistiu mais que qualquer outra que Marco já havia posto em sua mira. Xingou, falou mal pra todo mundo, até pregou peças para humilhar o rapaz. Mas ele foi tão, tão insistente que quando já era moça adulta, cheia de um romantismo que sua mãe oprimia com todas as forças, não conseguiu mais fugir. Se entregou de corpo e alma, entregou tão entregada que grudou de vez.
Casaram. Tiveram uma filha que Dona Helena pôde conhecer apenas nos primeiros anos. A mulher, mula teimosa, faleceu de doença fatal, ainda fiel a suas crenças, suas opiniões. Tão crente de si mesma que até fez Ritinha duvidar de seu amor por Marco Antônio e do amor dele por ela. Tanto que ela até chegou a se perguntar se deveria ensinar à sua filha os mesmos ensinamento da avó, que querendo ou não estava certa de muita coisa.
- Dona Rita, a Maíra ligou querendo falar do casamento. Pediu para ligar ainda hoje pra ela.
Ritinha concordou com a cabeça, olhando o mar do horizonte, longe dali, longe da varanda que Marco Antônio construíra anos atrás com seus próprios braços. Os cabelos grisalhos oscilavam ao ritmo da brisa marítima, as rugas aprofundavam quando dava, mesmo que de muito leve, o sorriso sereno. O morno da tarde fazia bem à alma.
O pôr-do-Sol era a cada dia mais tocante. Sozinha, era como a única fonte de calor para seu dolorido coração. E quando os pontinhos brilhantes de luz no azul marinho tomavam o lugar do laranja eletrizante, Dona Rita tinha lágrimas nos olhos. Olhava para a cadeira ao lado, há quatro anos vazia. E voltava para dentro, sempre imaginando se a solidão era melhor sem a dor de uma saudade.
18.1.10
Possibilidades
Ali, por entre as tábuas, Doca parecia feliz.
- Como é o outro lado da cerca?
- Ah, é grande, infinito. - disse o convencido, ciscando no seu território.
- É bom? - grunhou Natan, humilde.
O galo de briga parou e refletiu.
- Nem sempre.
- Por quê? - perguntou o curioso, extasiado com informação de fora.
- Muitas possibilidades.
Doca bateu as asas e chegou do outro lado do campo em vôo defeituoso.
E Natan não pode deixar de invejá-lo.
- Como é o outro lado da cerca?
- Ah, é grande, infinito. - disse o convencido, ciscando no seu território.
- É bom? - grunhou Natan, humilde.
O galo de briga parou e refletiu.
- Nem sempre.
- Por quê? - perguntou o curioso, extasiado com informação de fora.
- Muitas possibilidades.
Doca bateu as asas e chegou do outro lado do campo em vôo defeituoso.
E Natan não pode deixar de invejá-lo.
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