De seu cubículo, Marta ouvia
Joana fofocando,
Carlos em ligação (pessoal),
Marieta se servindo do café, quentinho.
Percorreu o corredor, disfarçadamente
Alcançou o banheiro feminino
Escalou a última privada
(Aquela abaixo da janela).
E respirou.
11.3.10
3.3.10
Decisão de vida
Ali no morro, Vitor pega a mão de Raíssa, morrendo de medo de estar fazendo alguma coisa errada. Ela usa um vestido azul cheio de flores bordadas na barra e ele a camisa da Igreja, porque é a única que não está furada no sovaco. As estrelas brilham, os grilos cantam aquela musiquinha engraçada e a vista é a mais bonita da cidade. Sob a luz do luar, Raíssa sorri com o mesmo nervosismo que Vitor encosta a mão dele na sua.
- Quer namorar comigo? - ele pergunta, sem olhar para ela.
- Eu quero. - responde a menina, ajetando as dobras do vestido.
Julia observa o morro pela janela de seu quarto. Duas sombras interferem a vista da Lua, juntas demais. Não consegue ouvir o que dizem, mas vê que estão de mãos dadas. Ele, Vitor, e ela, Raíssa. Dois colegas de classe com quem nunca falou na vida.
Deitada em sua cama, ela arranca as páginas de um caderno cor-de-rosa que quando novo exalava cheiro de perfume. As lágrimas percorrem as bochechas inchadas, de criança triste e contrariada. Com um som de rasgo, a folha se solta, amassada, cheia de corações desenhados e letras formando o nome "Vitor". Vitor.
Quando termina o massacre, a menina pega a caneta azul com purpurina e escreve na próxima página em branco, com tanta raiva que a mensagem sai com letras tortas: Eu nunca mais vou amar ninguém.
Fecha o caderno que agora só cheira a sulfite, se enterra no travesseiro e dorme ali mesmo, até o dia seguinte.
- Quer namorar comigo? - ele pergunta, sem olhar para ela.
- Eu quero. - responde a menina, ajetando as dobras do vestido.
Julia observa o morro pela janela de seu quarto. Duas sombras interferem a vista da Lua, juntas demais. Não consegue ouvir o que dizem, mas vê que estão de mãos dadas. Ele, Vitor, e ela, Raíssa. Dois colegas de classe com quem nunca falou na vida.
Deitada em sua cama, ela arranca as páginas de um caderno cor-de-rosa que quando novo exalava cheiro de perfume. As lágrimas percorrem as bochechas inchadas, de criança triste e contrariada. Com um som de rasgo, a folha se solta, amassada, cheia de corações desenhados e letras formando o nome "Vitor". Vitor.
Quando termina o massacre, a menina pega a caneta azul com purpurina e escreve na próxima página em branco, com tanta raiva que a mensagem sai com letras tortas: Eu nunca mais vou amar ninguém.
Fecha o caderno que agora só cheira a sulfite, se enterra no travesseiro e dorme ali mesmo, até o dia seguinte.
22.2.10
Teste de Gravidez
Era Regina que segurava o palito, apesar de Norma ser sua dona. Negativo, anunciou em voz monótona. Negativo, repetiu mentalmente.
Norma olhou-se no espelho, procurando pela outra. Aquela mulher ansiosa, possivelmente grávida. Não encontrou. Então o reflexo de Regina surgiu atrás do seu, os olhos cheios. Não de compaixão, mas de piedade. Aquela maldita piedade.
Ufa, disse Norma, sem sorrir. A amiga sorriu, mas a piedade não desapareceu. Você pode ir, sei que tem muito que fazer, foi o que falou para que fosse embora. Não foi. Norma alargou um sorriso no rosto, uma tentativa fraca. Regina não se mexeu.
E o pai?, Regina era direta. Nunca mais me ligou, respondeu. Perderam-se em pensamentos, nenhuma das duas falou durante alguns minutos. Vou para casa antes que o Fábio chegue, foi a despedida de Regina. Norma a acompanhou com os olhos, mas ficou no banheiro. Ainda se olhava no espelho.
Negativo, repetiu para si mesma. Lavou o rosto, só água. Ajeitou o cabelo desgrenhado e ensaiou o sorriso. Mirou o frasco de Valium, medicado para a insônia. Pagou o batom, passou e saiu.
Norma olhou-se no espelho, procurando pela outra. Aquela mulher ansiosa, possivelmente grávida. Não encontrou. Então o reflexo de Regina surgiu atrás do seu, os olhos cheios. Não de compaixão, mas de piedade. Aquela maldita piedade.
Ufa, disse Norma, sem sorrir. A amiga sorriu, mas a piedade não desapareceu. Você pode ir, sei que tem muito que fazer, foi o que falou para que fosse embora. Não foi. Norma alargou um sorriso no rosto, uma tentativa fraca. Regina não se mexeu.
E o pai?, Regina era direta. Nunca mais me ligou, respondeu. Perderam-se em pensamentos, nenhuma das duas falou durante alguns minutos. Vou para casa antes que o Fábio chegue, foi a despedida de Regina. Norma a acompanhou com os olhos, mas ficou no banheiro. Ainda se olhava no espelho.
Negativo, repetiu para si mesma. Lavou o rosto, só água. Ajeitou o cabelo desgrenhado e ensaiou o sorriso. Mirou o frasco de Valium, medicado para a insônia. Pagou o batom, passou e saiu.
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