1.5.12

The way it hurts

Foi o último zíper aberto da mochila que a fez lembrar daquele dia. Bebia sozinho no bar, de onde podia ver a televisão. Tinha olhos apenas para o jogo. Até o momento em que a viu, o sorriso desafiador. O que era mesmo que a havia seduzido? Provavelmente aquele charme perigoso. Fechou o zíper e esperou.

Havia dias que ele não aparecia em casa. Por isso, a briga foi tão feia. Começou com os gritos, os xingamentos. O babaca nem podia se justificar, porque não tinha o que dizer e vinha completamente bêbado. Passou a noite com as vagabundas, ela acusou. Ele não respondeu. Ela partiu para cima.

Móveis quebrados, paredes socadas. Um olho roxo, talvez dois, dores pelo corpo. Mesmo assim, ela não parou. Provocou e ele avançou. Ela correu para a porta com sua mochila. Ele jamais a deixaria partir.

Segurou-a pelo braço e jogou-a contra a parede, onde a prendeu com o corpo. Beijou-a, primeiro à força. Depois, sentiu seus braços finos puxando-o. Quando a olhou, ainda viu ódio em seus olhos. Ela cuspiu e ele se afastou.

Em vez de agredi-la, como ela esperava, ele alcançou seu isqueiro de estimação. Era o fim. Ele o jogou na cortina, que se incendiou em segundos. Era hora de partir. Ela saiu correndo abraçada à mochila e parou a alguns metros. A casinha alugada em chamas era algo bonito de ver.

Mais uma vez, ele a havia abandonado. Mais uma vez, haviam brigado. Ele a xingou, berrou e agrediu. Destruiu sua casa. Mais uma vez. Ela queria deixá-lo. Ele tocou em seu ombro. Precisamos ir, disse. Ela o seguiu. Mais uma vez.

11.3.12

Da janela

Quando olhei pela janela, senti uma estranheza.
Podia jurar que aquele pequeno prédio espelhado tinha uma parede azul. Mas, naquele dia, exibia um creme sem graça, desses de casinha de interior.

Era certo que alguma coisa havia mudado nele...
Se era a cor, nunca mais poderia saber.

2.3.12

A espera

Andava por um caminho tortuoso. As folhagens densas e os galhos grossos escondiam a estreita trilha de terra e o caminho incerto não permitia que se visse além de um ou dois metros à frente. O ar era úmido, quente e pesado. A cada passo, folhas batiam em seu rosto e, ao olhar para cima, só via as copas de árvores. Estava sozinha e já andava havia alguns quilômetros, mas Marta não tinha medo. Era corajosa, gostava de uma aventura. Era uma menina esperta e cheia de vida

A trilha terminava em uma clareira, onde ficava um pequeno sobrado de madeira. Longas tábuas verticais, pintadas de um tom azul-piscina, desgastadas e sujas, formavam suas paredes. No telhado, faltavam algumas telhas. Nas janelas, alguns vidros. A varanda se estendia por toda a sua fachada e recebia os visitantes com os sons tilitantes do mensageiro dos ventos.

O interior da casa trazia um cheiro fresco, de úmido e mofado. Fora sempre assim. Seus cômodos eram escuros e cavernosos. Abrigavam poucos móveis, pouca ou nenhuma decoração. Não deixava, porém, de ser aconchegante. Marta chamava aquele sobrado de lar desde seu difícil nascimento no quarto do andar de cima. E não o abandonara desde então.

Como toda menina, tinha grandes sonhos. Chegar longe, alcançar o horizonte. Era tão bonita, tão cheia de energia! Poderia ir para onde quisesse... mas não ia. Ia gastando sua juventude nas pequenas tarefas domésticas, em reexplorar a região já explorada, na solidão e nos planos do futuro. Um futuro que nunca chegava.

Não era dada ao medo nem à desistência. Era algo naquela casa, na cor desgastada, na varanda velha, no mensageiro dos ventos... Era algo que era dela e a que ela pertencia. Um pedaço essencial que não a permitia deixá-la para trás.

O dia, porém, chegou.
Marta finalmente iria embora. Não olharia para trás.

Foi até o quartinho, fez sua mala. Poucos pertences. Suspirou profundamente o ar úmido daquele lugar. Visitou cada cômodo, cada lembrança. Lembrou-se dos momentos ternos e dos momentos dificeis. Deixou-se viajar pelas décadas ali marcadas. Permitiu-se chorar pelo adeus.

Mas a melancolia e a nostalgia não a desanimaram. Estava determinada. Era o dia.

Faltava apenas um último cochilo. Deitou na rede, ajeitou o corpo pequeno e frágil. Já não tinha tanta vida, tanta energia ou beleza. Antes de adormecer, viu as copas das árvores se balançando do lado de fora da janela e sentiu conforto no movimento.

Então, fechou os olhos.

Por lá ficou, o corpo velho e cansado.
E Marta não olhou para trás.